1. Se tivesses de resumir o teu bookstagram em 3 palavras, quais seriam?
Pessoal, acolhedor e intimista.
2. O impacto das redes sociais tem-se refletido nas leituras dos teus alunos? Já viste isso acontecer na prática?
Sim. Muitos dos meus alunos, e até ex-alunos, têm adquirido ou requisitado livros das bibliotecas escolares e públicas, após as minhas partilhas nas minhas redes sociais. Uma das minhas alunas tem frequentado Clubes de Leitura, entre os quais o meu, Clube de Leitura A Biblioteca da Paula em Vila Franca do Campo. Além disso, quatro alunos da minha direção de turma desafiaram-me a dedicar uma aula semanal à leitura, surgindo assim, juntamente com uma amiga que também lhes dá aulas, o Projeto Entre Páginas e Partilhas que foi aprovado em Conselho Pedagógico.
3. Entre livros físicos, e-books e audiolivros, o que achas que faz mais diferença para os jovens?
Entre livros físicos, e-books e audiolivros, o que faz mais diferença para os jovens depende muito do contexto e das preferências individuais. No entanto, por experiência e observação direta, muitos jovens que gostam de ler continuam a preferir livros físicos.
Na minha opinião e na dos jovens que conheço, os livros físicos são mais apelativos porque proporcionam uma experiência sensorial completa: o toque do papel, o cheiro, o virar das páginas. Estes elementos ajudam a criar uma ligação mais forte com a leitura. Além disso, ler em papel reduz as distrações associadas aos dispositivos digitais, como notificações ou acesso fácil a outras aplicações, permitindo maior concentração e imersão na história.
Há também evidências científicas de que a leitura em formato físico pode favorecer a compreensão e a retenção da informação, já que o leitor tende a ter uma noção mais clara da estrutura do texto (por exemplo, saber “onde” algo aconteceu no livro).
Embora os e-books e audiolivros sejam são mais práticos, acessíveis, permitam ler ou “ouvir” em qualquer lugar, e possam ser uma excelente porta de entrada para jovens com menos hábitos de leitura ou dificuldades de concentração, para muitos jovens, especialmente os que já têm gosto pela leitura, os livros físicos acabam por ser mais envolventes e eficazes, contribuindo para uma relação mais profunda e duradoura com os livros.
4. Se pudesses mudar uma coisa na forma como a leitura é trabalhada na escola, para aproximar mais os jovens dos livros, o que seria?
Mudaria a forma como a leitura é trabalhada na escola, dando mais liberdade de escolha aos alunos. Muitas vezes, os jovens afastam-se dos livros porque são obrigados a ler obras que não lhes despertam interesse ou com as quais não se identificam. Quando fiz parte da equipa da biblioteca escolar da minha escola prestava atenção ao que os meus alunos diziam gostar de ler. Na altura eram os Manga e as obras que eram adaptadas à Netflix, pelo que fiz de tudo para que no acervo da biblioteca passássemos a ter este tipo de livros e o facto é que resultou.
A afluência à biblioteca aumentou e começamos a ver os alunos a ler nos corredores e nos jardins. Ao permitir que escolham livros de acordo com os seus gostos — seja fantasia, romance, mistério ou até banda desenhada — aumentava-se a motivação e o prazer pela leitura.
Além disso, tornaria a leitura menos centrada na avaliação formal e mais na partilha de experiências. Em vez de testes rígidos sobre algumas obras, poderia haver debates, apresentações criativas ou discussões em grupo, onde os alunos pudessem expressar o que sentiram e pensaram ao ler. Isso ajudaria a criar uma relação mais pessoal e menos obrigatória com os livros.
No fundo, a mudança essencial seria passar de uma leitura vista como tarefa para uma leitura vivida como descoberta.
5. Qual foi o momento/experiência mais surreal que já viveste por causa do bookstagram?
Um dos momentos mais surreais que vivi por causa do bookstagram foi perceber que, através dele, consegui interagir com alguns dos meus escritores favoritos — algo que antes me parecia completamente fora de alcance. No entanto, o episódio mais marcante foi, sem dúvida, quando, em dezembro de 2025, criei o meu Clube de Leitura e a
escritora Ana Oliveira Cardoso partilhou essa iniciativa nos seus stories. Foi um reconhecimento inesperado e muito especial, que me fez sentir que todo o trabalho e dedicação estavam, de alguma forma, a chegar às pessoas certas.
6. Se tivesses de recomendar um autor açoriano a alguém que nunca leu nada dos Açores, quem seria e por onde começar?
Temos ótimos escritores açorianos, mas eu adoro a escrita de Pedro Almeida Maia, por isso recomendo-o sempre que tenho a oportunidade. Comecei a ler este escritor com A Escrava Açoriana, mas para começar de uma forma mais leve, sugeria Ilha-América.
7. Qual é o spot perfeito para ler um livro em São Miguel?
Eu leio em qualquer lugar, mas sempre que está bom tempo adoro ler numa zona especial do meu concelho, Vila Franca do Campo, com uma vista espetacular para o ilhéu. Geralmente levo uma manta ou sento-me na relva e leio ao som das ondas a bater no calhau do Poço Largo.
Gostaram desta entrevista? Não se esqueçam de espreitar o instagram da Paula (@a_biblioteca_da_paula).
Esta entrevista foi feita no âmbito do desafio "Um Mês de Açores", um desafio que promove a divulgação de livros sobre as ilhas do arquipélago dos Açores, que se encontra a decorrer todo o mês de junho.






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