domingo, 8 de agosto de 2021

Fim da 1ª Edição do "De Livro para as Ilhas": agradecimentos e resumo das leituras


E terminou no passado dia 31 a 1ª edição do #delivroparaasilhas um desafio organizado com a @angiexreads .

Agradeço a todos os participantes no desafio, a quem participou na troca, a todos os convidados das entrevistas e todos os que de alguma forma se envolveram neste projeto e que levaram o "De Livro para as Ilhas" a mais casas.

Apesar desta 1ª edição ter terminado, este é um desafio que vos proponho para o ano inteiro: vamos ler e divulgar livros dos Açores e Madeira o ano inteiro 😊 não se esqueçam de colocar a hashtag #delivroparaasilhas nas vossas publicações para que possamos ir vendo as vossas leituras e ir interagindo.

Gostaria de dar os parabéns às vencedoras do sorteio dos dois packs das ilhas: @emcasulo e @leiturasdacristina , que ganharam o pack do arquipélago dos Açores e da Madeira, respetivamente (cada pack com um livro do arquipélago e miminhos).

Entretanto deixo-vos um resumo das minhas leituras para o desafio:

- Os Limites do Coração de Patrícia Carreiro (Açores) - a minha 1ª leitura do desafio que, apesar de não ser bem a minha praia, gostei pelo facto de me ter dado a conhecer o concelho da Ribeira Grande, pelo qual passeio tantas vezes mas não sabia nada sobre a sua história.

- A Lenda da Maria Encantada de José Jorge de Melo (Açores) - um livro infanto-juvenil baseado numa lenda da ilha Graciosa que o autor crê ter tido origem num sismo de 1837 que destruiu a Vila da Praia.

- Contos da Imprudência de Pedro Paulo Câmara (Açores) - livro de contos de um autor micaelense que gostei muito (opinião já disponível no feed).

O que não ficou por dizer de Júlio Tavares Oliveira (Açores) - um livro de poesia de um autor micaelense que nos faz pensar sobre o amor.

- Mau tempo no Canal de Vitorino Nemésio (Açores) - uma leitura conjunta com a @marcador.inquieto e que deixei de parte porque não estava no mood para ler algo que não fosse fantasia 🤷

- Segredos de Uma Ilha - O Início de Natacha Silveira e Bruno Silveira (Madeira) - uma leitura que ainda não terminei, mas vai a bom ritmo 😊

E vocês, que leituras fizeram? Contem-me, qual foi o último livro de autor açoriano/madeirense (ou cuja história se passe nas ilhas) que leram?

Com amor, Brenda

quarta-feira, 28 de julho de 2021

De Livro para as Ilhas: Joel Neto

E, para encerrar a ronda das entrevistas da 1ª edição do "De Livro para as Ilhas", trago-vos uma pequena entrevista a um autor que dispensa apresentações, pois é dos autores açorianos mais conhecidos no continente: o terceirense Joel Neto!


1. Ser Açoriano é... (complete a frase)

J: ... não saber exactamente o que se é. Se se é terra ou água, se se é ilha ou continente, se se é carne ou pedra – se se é gente ou sereia, como escreveu Nemésio. É não saber a resposta a nenhuma dessas perguntas e fazer da vertigem da dúvida um mote criativo.

2. Alguma vez sentiu que o facto de ser açoriano tornou mais difícil ser lido nacionalmente ou dificultou a projeção mediática no mercado literário?

J: Pelo contrário, sinto que o meu trabalho desperta mais interesse precisamente por eu ser açoriano. Tenho uma vantagem, claro: fui jornalista de quase todos os grandes jornais portugueses, vivi em Lisboa vinte anos – e vivi mesmo, não me limitei a sobreviver. Mas, mesmo que não tivesse portas abertas, estenderia sempre o braço na direcção do outro. Também é isso um açoriano – se calhar mais do que qualquer outra coisa.


3. Enquanto escritor, tem algum hábito em particular na hora de escrever? Por exemplo, usar a mesma caneta ou comer as famosas cornucópias da Terceira?

J: Não tenho hábitos inúteis, mas tenho rotinas úteis. Trabalho no meu shed, na minha cabana. Uso sempre computador, catalogo todas as ideias que tenho a partir do meu telemóvel, uso o Excel (um programa inusitado, mas cheio de potencialidades) para o planeamento... Ah: e bebo café e fumo. Afinal, tenho hábitos inúteis também – aquele café não serve para nada.


4. Tem algum livro aguardando publicação? Se sim, pode dar-nos alguma pista sobre o que poderá tratar?

J: Tenho um livro a entregar no fim do ano para sair em 2022 e outro a entregar no fim de 2022 para sair em 2023. Posso adiantar que são ambos de ficção, uma novela e um romance. O âmbito em que ambos são redigidos, o fim que cada um deles persegue, a relação destes com os respectivos resultados finais – isso é surpresa.


5. Enquanto leitor, qual o género que predomina na sua estante?

J: O romance, claramente. Mas nos últimos anos tenho lido bastante ensaio.


6. Qual o seu sítio favorito para comprar livros?

J: Eu podia dar-lhe uma resposta para meter estilo, mas creio que o favorito é mesmo o Chiado. A Fnac, a Bertrand, os alfarrabistas... Gosto do Chiado, gosto de voltar a Lisboa, e é sempre ali que encontro mais amigos sem planear. Quase todos os lançamentos dos meus livros acontecem na Fnac do Chiado.


7. Que livro escrito por um(a) autor(a) açoriano(a) é, na sua opinião, de leitura obrigatória?

J: Muitos são de leitura obrigatória. Quem não leia mais nenhum tem de ler ao menos Mau Tempo no Canal, de Nemésio; Gente Feliz Com Lágrimas, de João de Melo; e, para escolher um terceiro, a trilogia Raiz Comovida, de Cristóvão de Aguiar.


8. Que livro de autor insular (ou cuja história se passe nas ilhas dos Açores ou Madeira) gostava de ler até ao final do ano?

J: A Mulher, O Jogo Mais Perigoso, de Maria Luísa Soares.


9. Qual o seu lugar favorito da ilha Terceira? Esse sítio já inspirou de alguma forma a sua escrita?

J: O interior da ilha. Todo ele. E, sim, completamente – pelo menos o Arquipélago e os dois volumes do diário A Vida no Campo.


10. Dê-nos 3 motivos para visitar a Terceira.

J: Uma paisagem harmoniosa; o peso inexpugnável da história; uma gastronomia exultante; a força do Espírito Santo (e di-lo um ateu). Quatro motivos, afinal.

11. Deixe umas últimas palavras a quem lê esta entrevista.

J: Não desistam de mudar o mundo. E façam planos até ao último dia das vossas vidas.



Agradeço ao Joel por ter aceite o convite para a entrevista e agradeço a todos vocês que, ao longo do desafio, foram acompanhando as entrevistas dos vários convidados.

Espero que tenham gostado de conhecer um pouco mais sobre o povo açoriano que escreve, lê e divulga livros.

Com amor, Brenda

segunda-feira, 26 de julho de 2021

De Livro para as Ilhas: Pedro Paulo Câmara

Estamos na reta final do desafio De Livro para as Ilhas, cuja 1ª edição termina a 31 de julho, e não podia deixar de trazer o autor Pedro Paulo Câmara que, depois de se aventurar na poesia, no romance e nos contos (inclusive publiquei opinião do seu livro Contos da Imprudência), publicou recentemente um trabalho de investigação sobre o poeta açoriano Armando Côrtes-Rodrigues. Conheçam um pouco mais sobre o Pedro Paulo Câmara, um autor da ilha de São Miguel (Açores). 


1. Defina-se em 3 palavras.

P: Tentando escapar a uma redução do meu ser, poderia definir-me como determinado, responsável e empático.

2. Escreve apenas quando está inspirado ou tem alguma rotina de escrita?

P: Não tenho qualquer tipo de rotina. No que diz respeito à produção de texto, sou profundamente indisciplinado. Não obrigo um texto a nascer, nem me forço a escrever 5, 10 ou 20 linhas por dia. Escrevo quando me apetece, quando se proporciona, quando a própria envolvência a isso me obriga. Permito que os estímulos do dia-a-dia me incentivem e me contaminem.

3. Escrever no papel ou no computador?

P: Sem hesitar, escrever no papel primeiro. Aprecio verificar, no papel, todo o processo de criação e metamorfose do texto.

4. Publicou recentemente "Violante De Cysneiros: O Outro Lado do Espelho de Côrtes-Rodrigues?", um livro que é resultado de um projeto académico sobre o poeta Armando Côrtes-Rodrigues e seu pseudónimo feminino Violante de Cysneiros. Fale-nos um pouco como surgiu esta curiosidade por este autor açoriano.

P: Ao frequentar a licenciatura, há cerca de 20 anos, e ao frequentar, mais recentemente, o Mestrado em Estudos Portugueses Multidisciplinares, no âmbito do qual surgiu este projeto de investigação, verifiquei que os conteúdos programáticos são, regra geral, muito rígidos e constatei, ainda, que é frequente existirem autores e trabalhos que são obliterados pelos críticos, pelo cânone, pelas Academias, pelos habituais fazedores de opinião. Estou, e serei sempre, consciente das minhas raízes. Portanto, quando surgiu a oportunidade de escolher uma temática que considerasse pertinente e válida, optei por trabalhar Armando Côrtes-Rodrigues e, em particular, Violante de Cysneiros. Na minha opinião, importava perceber quem era quem neste jogo de produção literária. Pela quantidade e diversidade da sua produção literária e pelo papel que este autor desempenhou no panorama cultural açoriano, considero que importava recuperá-lo. Assumo que, sendo um autor pouco estudado, existindo escassa bibliografia sobre o mesmo, e, por muitos, quase desconhecido no panorama nacional, foi uma decisão arriscada. O resultado faria valer a pena.

5. Se pudesse começar uma nova obra de investigação sobre outro escritor açoriano que mereça ser mais estudado, qual é o primeiro nome que lhe ocorre?

P: Esta é uma escolha difícil, porque há autores açorianos cuja obra é profundamente interessante e rica, sendo que urge trazer à ribalta aquilo que escreveram, num determinado tempo, num determinado espaço. Assim, teria de escolher, por exemplo, Roberto de Mesquita, possivelmente, na minha opinião, um dos maiores poetas simbolistas portugueses.

6. Enquanto leitor, qual o género que predomina na sua estante?

P: Poesia, seguramente.

7. Qual o seu sítio favorito para comprar livros?

P: Nos Açores, não posso esquivar-me a referir a livraria Letras Lavadas, onde me sinto em casa, mas sempre que tenho a possibilidade de viajar, adoro revolver as pilhas de livros dos alfarrabistas.

8. Que livro escrito por um(a) autor(a) açoriano(a) é, na sua opinião, de leitura obrigatória?

P: Mau Tempo no Canal.

9. Qual o seu lugar favorito da ilha de São Miguel? Esse sítio já o inspirou de alguma forma na sua escrita?

P: Sou natural da costa oeste da ilha, onde decidi continuar a viver. Considero a minha freguesia, os Ginetes, um espaço de riqueza inegável. Assim, não considero que seja difícil escolher um lugar favorito e terei de apontar a fajã lávica da Ferraria. Na verdade, a Ferraria, o Pico das Camarinhas, a freguesia e a ilha Sabrina já inspiraram uma das minhas obras, o romance histórico Cinzas de Sabrina, cuja parte da ação decorre, precisamente, nesta freguesia.

10. Dê-nos 3 motivos para visitar a ilha de São Miguel.

P: Temos a matéria líquida, o Atlântico-ponte; a matéria sólida, ilhas encantadas, nascidas das entranhas da terra; e a matéria humana, gente de sal e de lava. São os ingredientes essenciais para a criação de um espaço místico e singular.

11. Deixe umas últimas palavras a quem lê esta entrevista.

P: Escrever é um processo de descoberta do outro, do mundo e de mim próprio. Faço-o como quem precisa de alimento e com a mesma sede de quem deambula no deserto da existência há várias noites. Escrever é, verdadeiramente, uma necessidade. Não sou já o mesmo que publicou o Perfumes, no longínquo ano de 2011. Sou o acumular de experiências que me são oferecidas pelos livros que leio, pelas pessoas que abraço, pelas viagens que faço, e talvez seja por isso que os meus livros são tão distintos entre si, no conteúdo e na forma, da poesia à prosa. Escrever é ter uma voz. Essa voz amplifica-se com os leitores e esse percurso foi-se concretizando ao longo dos tempos com a publicação do Perfumes (poesia), do Saliências (poesia), do Cinzas de Sabrina (romance), do Na Casa do Homem sem Voz (poesia), do Contos da Imprudência (contos) e, agora mais recentemente, com o Violante de Cysneiros: o outro lado do espelho de Côrtes-Rodrigues? (investigação), bem como com a colaboração em inúmeras colectâneas nacionais e internacionais.

Espreitem o site do autor: https://pedropaulocamara.wordpress.com/


Esta entrevista foi feita no âmbito do desafio "De Livro para as Ilhas", organizado com a @angiexreads, que se encontra a decorrer até dia 31 de julho e só precisas de ler livros sobre as ilhas dos arquipélagos dos Açores e Madeira para participar.

Com amor, Brenda

domingo, 18 de julho de 2021

De Livro para as Ilhas: The Atlantic Reads

@theatlanticreads é uma criadora de conteúdo natural da ilha da Terceira (Açores). Descubram mais sobre esta menina terceirense nesta pequena entrevista. 😉


1. Define-te em 3 palavras. 

Sou bastante teimosa, mas sou também uma pessoa empenhada nos seus objetivos e resiliente

2. Como surgiu a ideia de criar o "The Atlantic Reads"? 

Já há muito tempo que queria criar o meu espaço dentro desta comunidade incrível, partilhar leituras e gostos. O The Atlantic Reads surgiu daí. Como açoriana e bookaholic que vive no meio do atlântico, acho que o nome fez todo o sentido. Honestamente, nem me lembro bem como me surgiu 😅 mas foi muito de repente, gostei e ficou. 

3. Qual a tua leitura atual?

Estive meses sem ler nada, entrei numa ressaca literária depois de ler 50 páginas de Memorial do Convento (não me julguem, não consegui gostar daquilo). Atualmente estou a ler Kill Creek, de Scott Thomas. É terror e estou completamente fora da minha zona de conforto, mas a gostar

4. Qual o teu sítio favorito para comprar livros?

Sites online, como Wook e Almedina, e Continente. E recentemente aventurei-me na Amazon Espanha, perco a cabeça lá 😂

5. Escreves a opinião literária mal acabas de ler o livro?

Depende do livro. Alguns prefiro escrever logo, normalmente aqueles que não me deram um impacto assim tão grande. Outros preciso de refletir bem sobre eles antes de fazer a sua review ou lhes atribuir uma classificação.

6. Que livro recomendas sempre aos teus amigos?

O Código da Vinci, de Dan Brown. É o meu favorito ☺️

7. Qual foi o último livro escrito por um(a) autor(a) açoriano(a) que leste?

Shame on me, acho que nunca li nenhum 😱

8. Então, que livro de autor(a) açoriano (a) gostavas de ler até ao final do ano?


A: Meridiano 28 do Joel Neto

9. Qual o teu local favorito da ilha da Terceira?

Vários, mas talvez o Porto das Cinco. É uma zona balnear e passo lá os melhores momentos durante o verão. 

10. Dá 3 motivos para as pessoas visitarem a tua ilha!

Se querem boa comida, muita folia e diversão e uma experiência única de contacto com a Natureza, a ilha Terceira é o sítio certo para vocês. Por alguma razão se diz que “Os Açores são 8 ilhas e um parque de diversões”.


Esta entrevista foi feita no âmbito do desafio "De Livro para as Ilhas", organizado com a @angiexreads, que se encontra a decorrer até dia 31 de julho e só precisas de ler livros sobre as ilhas dos arquipélagos dos Açores e Madeira para participar.
Com amor, Brenda

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Contos da Imprudência de Pedro Paulo Câmara

 

Comprem este livro: Letras Lavadas Livraria

Sinopse: “Medo e Mito. Morte e Amor. Solidão e Desesperança. Talvez Medo e Mito, informes e famintos, alicercem o Amor ou a Solidão. E talvez tanto um como outro tenham garras e forças suficientes para rasgar o ventre e a alma de cada ingénuo humano. Desfazemo-nos no vagar dos dias e compomo-nos de Imprudências que se amontoam ao entardecer.

Em Contos da Imprudência, forças titânicas assumem o controlo - e o destino- de cada personagem, reflexo de mil homens e mil mulheres sem opção, desarmados.”

Em primeiro lugar, agradeço ao autor Pedro Paulo Câmara a oferta do exemplar para opinião literária honesta. 

Contos da Imprudência é uma antologia de contos submetidos em concursos de escrita em que este autor micaelense participou e outros inéditos.  

Através dos contos que nos apresenta, Pedro Paulo Câmara desafia a nossa perceção dos limites entre o amor e a morte, entre o egoísmo e a solidão, entre o arrependimento e o destino, e de tantas outras coisas que muitas vezes a nossa alma luta para lidar, seja por imaturidade ou por dificuldade em conseguir entender ou suportar.

O meu conto favorito foi o "Sob Asas". É um conto que nos fala sobre sair da ilha e voltar, o que é ser ilhéu na distância e na proximidade, fala sobre abandonar quem somos para fugir à dor, sobre viver dormente e sem aproveitar a vida por conta do arrependimento que sentimos e é, acima de tudo, um conto sobre a necessidade de nos perdoarmos por aquilo que está fora do nosso controlo. É um conto sobre crescer e ser capaz de voltar ao lugar a que associamos essa dor.

Deixo-vos a minha citação favorita:
"Aqui, nestas ilhas, a essência de cada um é absorvida pela alma da terra, pelo espírito do mar, pelo sentir dos cumes e das crateras. Como sabe bem ser-se uno, viver-se em comunhão com este solo negro. Como sabe bem alimentar-me do cheiro a enxofre que inunda os sentidos sem permissão. Só na distância me apercebi da importância destas montanhas eretas no meio do Atlântico. Fui um ilhéu, na distância. Sou menos ilhéu na proximidade."
De um modo geral, e tentando não adiantar muito mais, porque o livro é pequeno e não vos quero revelar muito, achei a escrita muito versátil (por ter contos mais leves e outros mais "dark"), extremamente poética (revelando um pouco do background do autor) e adorei as subtis críticas sociais/ políticas! Todos estes aspetos fizeram esta leitura ser muito interessante 

Ficaram curiosos com este livro? Gostam de ler livros de contos? Qual o último que leram?

Classificação: ★★★★☆ (4/5)

Com amor, Brenda

sexta-feira, 9 de julho de 2021

De Livro para as Ilhas: Daniel Gonçalves

Sem querer descurar as outras pessoas que entrevistei neste projeto do "De Livro para as Ilhas", esta era a entrevista que mais queria trazer-vos. Daniel Gonçalves, natural da Suíça, poeta, professor de Português. Daniel encontrou na ilha de Santa Maria o seu cantinho e por cá vive há mais de 20 anos. Foi meu professor de Português no 12º ano e foi um grande impulsionador do meu gosto pela poesia e pela literatura no geral. Conheçam Daniel Gonçalves, o poeta que veio e ficou.

1. Daniel, porquê a ilha de Santa Maria?

Como escreveu Pessoa… “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Acredito que foi a ilha que me escolheu a mim: a terra, o mar, o céu e as pessoas. E depois a reacção que tudo isto faz em mim, todos os instantes.

2. Defina "poesia".

É como tentar definir morte, ou vida, ou amor. A poesia, se for além do que importa perceber, é um processo que se vive interiormente. É mais do que um género literário para mim. É cheirar as flores ausentes.

3. Escreve apenas quando as musas o inspiram ou tem alguma rotina de escrita?

É um trabalho. Uma escravidão voluntária. Uma necessidade e uma missão. Sou missionário do meu mundo, à procura da palavra que vale a pena fixar.

4. Escrever no papel ou no computador?

Por comodidade, no computador. Por necessidade, em qualquer suporte.

5. Há algum livro na gaveta de momento à espera de ser publicado?

O livro ELOGIO DA TRISTEZA que, na verdade, são os meus últimos seis livros inéditos, compostos entre 2016 e 2021.

6. Enquanto leitor, qual o género que predomina na sua estante?

Toda a literatura possível, mais poesia do que outra coisa qualquer. Alguma história e muitos livros sobre pintura.

7. Qual o seu sítio favorito para comprar livros?

Poesia na Poesia Incompleta, mas o meu coração pertence à Livraria Solmar.

8. Que livro recomenda sempre aos seus amigos?

Metamorfoses de Ovídio.

9. Qual o seu local favorito da ilha?

Malbusca. Foi lá que adormeci um dia sob um chão de poejo.

10. Dê-nos 3 motivos para visitar a ilha de Santa Maria.

Tranquilidade geral... a Biblioteca Municipal e São Lourenço.

11. Deixe umas últimas palavras a quem lê esta entrevista.

Cada vez mais tenho dificuldade em encontrar razões para publicar outro livro… e pode parecer estranho dizer isto depois de apresentar o meu mais recente projecto, mas a verdade é que ainda não sei se valerá a pena… a edição tornou-se banal e é cada vez mais difícil convencer o mundo de que a poesia faz falta para não nos deixarmos iludir com promessas de eternidade: a vida é breve e todo o instante é precioso.


Esta entrevista foi feita no âmbito do desafio "De Livro para as Ilhas", organizado com a @angiexreads, que se encontra a decorrer até dia 31 de julho e só precisas de ler livros sobre as ilhas dos arquipélagos dos Açores e Madeira para participar.

Com amor, Brenda

quarta-feira, 7 de julho de 2021

A Cozinheira de Castamar (La cocinera de Castamar) de Fernando J. Múñez

Compra o livro: Wook | Bertrand

Sinopse: Espanha, 1720

Clara Belmonte é uma jovem de uma família abastada que, após a morte do patriarca, um dos mais prestigiados médicos de Madrid, se vê cair na mais completa pobreza.
Apesar da educação primorosa que recebeu, Clara precisa de uma forma de sustento e acaba por se candidatar a um trabalho nas cozinhas do palácio ducal de Castamar, que conquista graças ao talento para a culinária que herdou da mãe.
Clara não é bem recebida nos primeiros tempos. A sua eloquência, bem como o rigor na limpeza das cozinhas e a ousadia no requinte dos pratos, depressa a elevam na atenção dos habitantes da casa e no ciúme dos colegas de trabalho.
Mas é Dom Diego, o duque de Castamar, quem Clara mais impressiona. Arrancando-o à apatia absurda em que vive desde o estranho falecimento da mulher, a jovem cozinheira fá-lo derrubar todas as barreiras, despertando-lhe o palato, o intelecto e, por fim, o coração.

Em primeiro lugar, agradeço à Porto Editora a cedência do exemplar para opinião literária honesta.

A história de A Cozinheira de Castamar desenvolve-se no contexto da sociedade espanhola do século XVIII sob o reinado de Filipe V, onde conhecemos Clara Belmonte, uma cozinheira que sofre de agorafobia.

Clara sempre mostrou um talento especial para cozinhar e depois do seu pai, Doutor Belmonte, morrer na guerra, teve que transformar esta sua paixão em algo que a pudesse ajudar a sobreviver indo assim parar à casa de Diego, Duque de Castamar, viúvo há 10 anos e que se encanta com os cozinhados desta Belmonte.

Um aspeto interessante deste livro é que, apesar do seu nome, nem toda a história é focada na história da cozinheira. O autor dá espaço para conhecermos todas as personagens e as vermos evoluir ao longo da narrativa e isso é um dos aspetos que torna este livro tão enriquecedor.

Ao passarmos de narrador em narrador (penso que são cerca de 10 narradores) conseguimos ter uma visão geral da história como um todo. Dessa forma, conseguimos aceder a todos os cantos, recantos e, principalmente, aos pontos cegos de cada personagem e isso torna a história ainda mais incrível.

Mesmo com essa quantidade de narradores não ficamos absolutamente nada confusos com a história, muito pelo contrário. Sentimos que o enredo é-nos apresentado por completo e através dessas várias perspetivas aprendemos sobre o passado e motivações de cada indivíduo envolvido nesta trama. Aprendemos que todos têm os seus motivos para agir de determinada forma e, desse jeito, não os conseguimos julgar nas suas decisões e atitudes.

Além disso, o autor, ao mesmo tempo que nos apresenta cenas mais relaxadas com algum erotismo ao longo da narrativa, consegue ainda focar-se em temas extremamente sérios como o racismo, o machismo e a homossexualidade numa época em que era impensável aceitar um negro numa mesa de brancos, por exemplo, e não se limita a deixar estes temas à toa na história. Fernando J. Múñez cria paralelismos entre as personagens e as suas visões do mundo, cria debates e, acima de tudo, cria alguma desconstrução de preconceitos à medida do que seria possível desconstruir já naquela época.

Uma perceção que é muito interessante e desconstruída é a visão do que é o amor e do que é amar: o amor é o que nos faz viver ou o que nos mata? É a nossa salvação ou o nosso infortúnio? Eleva-nos o espírito ou mata-o aos poucos? É normal o amor entre duas pessoas de diferentes cores ou géneros iguais? 

O único ponto negativo que posso apontar neste livro é o tamanho dos capítulos, que, pelo menos para mim, não são amigos de quem tem uma vida um pouco mais corrida e não se pode sentar a ler um capítulo do início ao fim. Mas fora isso, adorei o livro e não o achei nem um pouco aborrecido.

E as receitas? Ai as receitas! Ficava a salivar só de pensar no que a Clara Belmonte descrevia! Senti que podia experimentar estas receitas e dar grandes jantaradas.

Posto isto, com tudo o que já vos descrevi, percebo perfeitamente o porquê de a 9 de julho estrear a série na Netflix, porque este livro super merece uma adaptação e espero que esteja à altura do livro.  Eu, seguramente, estarei colada ao ecrã nesse dia para ver a adaptação e, apesar de não ter visto a personagem "Gabriel" no trailer da série, espero honestamente que, pelo menos, nesse aspeto a série se tenha mantido fiel e não tenha cortado a personagem do elenco por algum motivo.

Classificação: ★★★★★ (4,5/5)

Com amor, Brenda