quinta-feira, 9 de março de 2017

And she will miss you




Lá vens tu.

Todas as tardes vejo-te chegar, olhar em volta e sentar no banco mais remoto de todo o jardim.

Pões os auriculares, ligas a música e fechas os olhos para ninguém ver as voluptuosas lágrimas que se agregam nesses teus olhos de mel.

Para quem passa és apenas um rapaz a desfrutar de uma música envolvente. Mal sabem eles o quão envolvente é...

Os olhos abrem-se duas ou três músicas depois. Olhas fixamente o chão, como se estivesses a vê-lo mover-se debaixo dos teus pés. Pouco depois olhas para cima, para o grande e velho carvalho do parque. Vês como se eleva sobre a tua cabeça e acredito que a cada segundo que passas a observá-lo te sentes cada vez mais pequeno.

Fazes sempre isto todos os dias. E todos os dias venho para aqui tentar escrever e volto de caderno em branco para casa. Não porque não me sinta inspirada, até porque essa tua alma quebrada é inspiração para mil e um poemas de dor, simplesmente esmagas-me de tal forma o espírito que não consigo traduzir-te em palavras.

Vens cada vez mais magro e as olheiras acentuam-se cada vez mais. Temo que não te andes a alimentar e que o sono não ande a ser bondoso contigo.

Temo que durmas e o teu pesadelo seja acordar.

Não sei quem te partiu o coração mas é penoso ver uma alma humana decair dia após dia. E tenho a certeza que ela um dia irá sentir a tua falta.

🌳

Duas horas e pouco se passam. Arrumas os auriculares e ao levantares-te olhas para mim. Sorris e vais embora.

Lá vais tu... pouco depois vou eu... de caderno vazio e alma cheia.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Freedom?


Vi este sapatinho de bebé junto de uma ribeira. Por algum motivo achei digno de registo.

Achei poético. Uma poesia triste, mas poesia...

Mas agora digam-me, é poético existirem milhares destes pelo mundo? Pela fome, pelos desastres cada vez mais frequentes, pela guerra... Por negligência!?

Negligência nossa para com as próximas gerações que irão habitar num mundo que hoje destruímos, seja por lutas pelo poder, dinheiro, território... Por querer tão orgulhosamente marcar um lugar na história.

Porquê ser inesquecível quando o que mais se vai querer apagar da história é a inutilidade evolutiva e estupidez destas décadas?

Seres que morrem, e matam cada vez mais, que espalham o preconceito e a violência, que olham para o próximo como se ele não tivesse valor.

Que não estendem a mão a quem precisa.

Até quando temos que ver "crianças mortas a dar à costa" e sapatinhos sem par perdidos por aí para mudarmos o nosso pensamento, o nosso rumo? Quantas vezes precisamos de rever a história para perceber que um dia todos morremos e a única coisa que deixamos é a herança do nosso amor pelo mundo e pelas pessoas com quem nos cruzamos, que o que deixamos são os sorrisos e a valorização até de simples ato bondoso?

Dizem que somos livres... Depende da perspetiva, depende do país onde nascemos, depende da sorte que tivermos, depende...!


sábado, 4 de fevereiro de 2017

Somos planetas. Somos asteróides. Somos...



Todos somos parte de um universo. Todos giramos em volta de uma motivação.

Todos nós temos um sonho.

Somos planetas. Somos asteróides. Somos cometas.

Somos regidos por sóis. Sóis amarelos, vermelhos... Somos regidos por uma força que nos faz gravitar.

E se o nosso sol, o nosso centro gravitacional for destruído? E se o nosso sol, a força externa que nos move desaparecer? Ficamos sem motivação? Entramos num buraco negro?






Há quem diga que um buraco negro não nos pode sugar para sempre. Que a certa altura saímos em algum lado... em alguma dimensão.

Por vezes podemos estar sem motivação, sem rumo. Por vezes as coisas desaparecem da nossa vida... mas sabes que mais? Elas por vezes desaparecem para que possam aparecer outras melhores.

Tem sempre presente que um dia voltarás a ser um novo ser, terás um novo recomeço, terás novos sonhos.

O que importa seres um asteróide, um planeta desagregado? Um dia chocarás com algo e farás parte de algo. Um dia vais ser um ser inteiro, basta acreditares.

E toda a matéria de que és feito só te tornará ainda mais único. E especial no universo.

Não te sintas perdido sem um sol, pensa que um dia poderás brilhar tu e ser tu a tua própria motivação.

Um dia podes ser tu o teu sol.

Brenda Cabral
(04-02-2017)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Lego House

Para acompanhar a leitura

Texto inspirado no vídeo que vi aqui: http://www.tabonito.pt/o-video-comovente-contra-o-abuso-sexual-de-mulheres-que-esta-correr-o-mundo


Lembro-me que uma vez, talvez no 8º ano de catequese tivemos que fazer uma atividade. Esta consistia em colocar post-its nas costas dos nossos colegas e escrever um adjetivo sobre deles. Fiquei muito contente com o desafio, pois tinha convivido a maior parte da minha vida com aquelas pessoas e, ainda que, não fosse amiga de algumas tinham sempre um sorriso para mim.

A atividade começou e tudo foi feito de modo a que ninguém soubesse quem escrevia o quê.

O alarido da sala era grande, muita gente riu e à volta de 15 pessoas escreveram em post-its nas minhas costas. Eu também escrevi em todos eles. Com quem não falava coloquei apenas "linda(o)", "simpática (o)" ou simplesmente "divertido(a)" porque na verdade não tinha nada de mal a dizer, sempre tinham sido simpáticos comigo, educados e brincalhões nas lições da catequese e alguns até no recreio.

A catequista pediu então que revelássemos o que tinham escrito. Empolgada tirei os papelinhos das minhas costas e foi aí que me deparei... Adjetivos como "puta", "cabra", "betinha" apareceram. O sorriso saiu logo do meu rosto e lembro-me perfeitamente que a catequista me perguntou o que tinham escrito. Não chorei. Eu era uma chorona na altura, mas não chorei. Lembro-me também de cerca de 1/3 dos que ali estavam a dizer "linda", "simpática", amiga"... Ah e "tímida".

Olhei aqueles papéis como um inferno. Não tinha feito nada para merecer aquelas palavras. Olhei os meus colegas e nenhum mostrou qualquer sinal de ter sido ele a escrever aquilo.

Tivemos que ler em voz alta o que tinham dito. Eu lá comecei a dizer o que tinham escrito. 

A catequista perguntou porque tinham escrito aquilo sobre mim, se tinha alguma vez dado algum motivo para dizerem aquelas coisas. Ninguém se pronunciou. Sabiam que eram só palavras da boca para fora. Não me metia com ninguém, falava o necessário, passava o tempo a estudar. Dava-me bem com todos...

A catequese acabou, mas a lição que retirei dela não.

Valorizei os elogios, até o "tímida", visto que era a mais pura das verdades! Mas os insultos ficaram. Ensinaram-me que faças o que fizeres haverá sempre alguém a recear que sejas mais bonita, mais sucedida, ou simplesmente mais simpática do que ela. Há sempre alguém que acha que tu não podes ser feliz porque essa pessoa não o é.

Aprendi que entre as boas pessoas, que realmente valorizam quem és, existem também as más. Aqueles que não te conhecem, conhecem apenas o teu nome e a tua aparência e isso é o que basta para te rotularem de algo mau, simplesmente porque não te compreendem, ou não querem compreender. 

Naquela idade a inveja e o ódio nem existiam, penso eu... São sentimentos muito fortes que não se aprende nessa idade. Mas o facto de eu ser aluna de excelência claramente não ajudou, era até como uma afronta para muitas pessoas, como se eu tivesse nascido para as deixar mal. Quando a única coisa que sempre fiz foi trabalhar para saber o máximo que pudesse e seguir o meu caminho com isso.

Foi uma brincadeira de crianças claro, mas abriu-me muito os olhos. Mostrou que é muito fácil falar-se das pessoas anonimamente, é muito fácil dar adjetivos maus quando elas não sabem que foste tu. Por isso pensa. Pensa se gostarias de tirar um post-it das tuas costas com um insulto, algo que tu sabes que não és. "Não se deve fazer aos outros aquilo que não gostaríamos que nos fizessem a nós."

Serás sempre mais bem sucedido que alguém. É um facto. E serás também menos sucedido que outros. É a hierarquia da vida. A diferença é como reages a isso: se decides criticar pelas costas ou ser feliz pela pessoa e trabalhar pelo teu próprio sucesso.

O que se diz a uma pessoa pode parecer banal, mas pode ficar com ela a sua vida toda. Pode influenciar a maneira como vê o mundo, a sua personalidade. Pode influenciar como vê as pessoas no geral depois disso. E influencia-te a ti também, o teu caráter e a pessoa que és no dia de amanhã, e depois disso...

É fácil falar por trás, mandar indiretas, ser invejoso. Mais difícil é fazer tudo às claras. É mais fácil apontar o dedo ao outro e dizer que ele é falso, imperfeito. É fácil... Difícil é teres consciência que ao apontar esse dedo ao outro tens outros três apontados a ti, cada um pelo que tens que te esforçar: caráter, dignidade e felicidade.

Eu vivia num castelo cor-de-rosa, achando que todos eram bons, felizes e com orgulho nas pessoas que são. Nesse dia ele desabou, nunca mais acreditei no sorriso das pessoas, nem nas suas aparentes boas intenções. Reconstruí a minha casa e cerquei-a por grandes muralhas de pedaços de desilusão que fui colhendo ao longo do tempo.

E como uma casa de legos pedaço a pedaço, desilusão a desilusão, ela foi ficando maior.

Maior a cada desilusão, sem visitas indesejadas e com largo espaço para os verdadeiros amigos. Poucos têm o privilégio de lá entrar. Para todos os outros sou simplesmente alguém fechado, protegida do mundo ou, simplesmente, a conspirar um plano para os destruir. As pessoas terão sempre algo contra aquilo que não conhecem bem, ou que não se permitem conhecer.

As pessoas terão sempre algo contra ti, faças o que fizeres, por isso vive, desfruta das coisas boas e escolhe bem os teus amigos.


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Filme: Milagre do Rio Hudson (Sully)

Trailer do filme

Em primeiro lugar, achei o trailer excecional, por isso quando soube que o filme tinha estreado em Portugal fiquei logo entusiasmada e não queria perder a oportunidade de vê-lo no grande ecrã.

Para quem não sabe, este filme baseia-se em uma história verídica na qual um avião em problemas foi forçado a aterrar no rio Hudson.

Ora, as expectativas eram altas, não só pela participação do Tom Hanks e Aaron Eckhart como também por ser dirigido pelo Clint Eastwood. 

E confesso: este filme não me desiludiu nem por um segundo!


Claro que o trailer engana um pouco, vamos com a ideia de que é um filme de ação, mas não é. Pelo menos não por completo.

A parte mais "calma", aborda algo que por vezes não é tão percetível pelo público numa situação de desastre: a atribuição de culpa.

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Às vezes é expectável pensar que os desastres acontecem e a culpa é de alguém, principalmente quando se trata de empresas que poderão ter uma grande repercussão da imprensa, dos próprios atingidos e, acima de tudo, uma grande perda económica.

O que acontece é que nestas profissões que envolvem vidas humanas o mínimo erro pode traduzir-se num desastre e em fatalidades. Neste filme, como seria de esperar tudo correu bem, mas nem sempre as coisas são tão lineares. Acredito que se aquele grande piloto com esta manobra tivesse perdido uma pessoa que fosse as consequências seriam outras.

Mas não perdeu e toda a questão do filme incide na ambição de uma campanhia que, embora veja o piloto ser aclamado como herói pelo povo, tenta culpá-lo de todas as formas possíveis.

Aquilo do qual se esquecem e que, na realidade destas áreas, ainda é esquecido é:

Ainda que com todos os dados e cálculos a intuição e factor humano são parâmetros que nunca se poderão calcular, mas que muitas vezes são os nossos melhores instrumentos na hora de tomar uma decisão.

Mas nem sempre se devem tomar decisões com base em algo tão subjetivo, aconteceu que neste caso ele teve sorte e conseguiu decidir com base nas necessidades do momento. 

Este filme faz pensar "E se fosse eu nesta situação?". Há quem possa pensar da perspetiva dos passageiros, outros do piloto, o que é certo é que é um filme que nos faz equacionar sobre decisões e sobre a forma como elas podem afetar os outros.

Classificação do Filme (0-10): 🌟🌟🌟🌟🌟🌟🌟🌟 (8 estrelas)



quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Tyrant: Final da 3ª Temporada



Na quarta feira, dia 21 de Setembro, foi emitido na Fox Life o 10º, e último episódio, da terceira temporada da série Tyrant.

Para quem ainda não viu, recomendo verem o episódio primeiro e voltarem mais tarde, pois irei falar de pormenores específicos e, com isso, revelar spoilers.

Nesta temporada, vemos o Barry assumir o cargo de Presidente de Abbudin e o que era um sonho para muitos tornou-se um pesadelo para outros. Isto porque ao longo da temporada de tudo acontece desde a morte de Emma, descoberta do verdadeiro pai de Ahmed, a paixão de Leila, ausência e frieza de Molly até ao envolvimento de Barry com Daliyah.

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Ao longo da temporada dei por mim a ficar repetidas vezes aborrecida. Honestamente, devo dizer que o conflito com o Ihab Rashid me está a dar cabo dos nervos. Os Al-Fayed e os Rashid estão em confronto desde a primeira temporada e não se vê o desfecho à vista. Penso que já estava mais do que na hora do Ihab passar à história.

Em segundo lugar, por muito que goste do Barry acho fascinante o rumo que a série tomou. Vemos o homem sensato, humilde e leal, que até foi considerado o herói do povo, assumir uma posição de ditador e ir contra todos os valores que até à data defendia.

Este era sem dúvida o rumo que previa para o Barry desde o início da série, e especialmente desde o início da temporada, pois acredito que muito poucas pessoas sabem manter a humildade no poder.

O que não previa era que ele atingiria o ponto extremo em que fica muito parecido com o Jamal, ou até mesmo com o próximo pai, que sempre criticou.

Vingar a Emma até chega a ser compreensível, cair de amores pela mulher que o acompanhou durante a guerra também, mas trair a Molly, mandar prender o melhor amigo, e tantas outras coisas, mostra o quão brusca pode ser a mudança de uma pessoa face ao poder que lhe é concedido.

Só mostra o quanto o Barry está a perder os princípios morais que tanto o caracterizavam.

Em relação ao último episódio em específico, penso que foi uma ótima maneira de terminar as coisas. Vemos um Barry que se apercebe, em parte, de que levou as coisas longe demais e que ainda quer um país livre. 

Adorei em especial a cena em que Ahmed substitui o quadro de Jamal pelo do pai, fazendo Barry aperceber-se que realmente se tornou um tirano. Acho que sumariou muito bem a posição do Barry neste final de temporada.

Por fim, devo dizer que fiquei pasmada com o peso da parte em que Molly pede um filho ao Barry sem ainda se aperceber que o destino é traiçoeiro e lhe poderia tirar o que já tem. (OBS: Isto foi bem complicado de se ver... chega a ser angustiante para quem ainda acreditava, como eu, que eles com tempo ainda se iriam resolver...).

E pronto, esta é a minha opinião acerca do último episódio e, de forma geral, de toda a terceira temporada de Tyrant. Qual é a tua opinião? Aconteceu o que esperavas/querias? Conta-me tudo nos comentários. :)

Para os que não vêem a série, recomendo que a comecem a ver pois é mesmo muito interessante e tenho a certeza de que irão gostar. ;)


domingo, 25 de setembro de 2016

Páginas em branco

(c) Brenda Cabral

Páginas em branco. Caneta em espera. Cappuccino a arrefecer. 

Assim abro o meu caderno todos os dias, na ânsia de uma inspiração que não vem. 

A mente a transbordar de palavras. Tantos pensamentos, teorias e sonhos. Todos a pairar na minha cabeça e impossíveis de traduzir em papel. 

Pouso a caneta. O tempo passa. Tic tac... tic tac... tic tac. Olho pela janela e vejo as pessoas na rua.

Podia escrever sobre o amor, o tempo ou o segredo da juventude. Podia escrever sobre segredos, desilusão ou apatia. Mas não escrevo.

Bebo o cappuccino já frio e observo o papel mais um dia em branco. 

Tantas memórias aguardam que as escreva, mas não pareço ter forma de as narrar.

Por hoje desisto. Mas só por hoje. Amanhã volto a tentar. 

Um dia terei algo bonito para contar, mas de momento o papel que fique em branco. Não há pressa em preencher aquelas páginas. Não há pressa em despejar vivências e momentos. 

Não há pressa...